O retorno ao ambiente escolar é essencial para o desenvolvimento social infantil?

Atualizado: Set 15


*por Laina Brambatti, diretora pedagógica da Cataventura Escola Infantil


Vejo com frequência o seguinte comentário nas rede sociais: “nem os adultos foram capazes de cumprir as regras, usar máscara e respeitar o distanciamento. Imagine se as crianças irão fazê-lo”.


Pasmem. Ao contrário do que muitos imaginam, tenho observado pequenos lidando melhor não só com as máscaras e com necessidade de se manter a certa distância de outra pessoa, mas também com muitos problemas que adultos não encaram. De forma irônica, ao mesmo tempo em que subestimam a capacidade das crianças , é esperado que elas — restritas ao espaço familiar, as convivências regadas de preocupação e desatenção — sejam fortes e passem por esse período turbulento de forma compreensiva.


Se o bem-estar das crianças está diretamente ligado à qualidade de vida de suas famílias, é necessário pensar qual é condição dos lares hoje. Isso porque, apesar de todos os esforços realizados entre famílias e escolas, é inegável que os responsáveis estão exaustos. Cansados de administrar um tempo recheado de incertezas enquanto cuidam da casa e dos filhos. Alguns perderam o emprego, inclusive por não ter com quem deixar os filhos para trabalhar. Em diversos casos, eles também assumiram a função de educadores — e, agora, não têm tempo para respirar, se recuperar e se voltar à criança com afeto.


A escola, além da sua função educativa/cognitiva, também auxilia no desenvolvimento da personalidade, cuida, alimenta, é um dos poucos espaços em uma comunidade onde tudo é pensado para o bem estar das crianças.


Esse momento é único e extremamente significativo para o desenvolvimento infantil, justamente porque ocorre fora do seio familiar. Geralmente é no ambiente escolar que a criança se vê primeiramente como sujeito independente em suas relações. É nesse espaço que a criança se arrisca e aprende a criar/conservar vínculos por conta própria, colocando em prática o que aprendeu em seu universo familiar.


A descoberta do mundo através das relações escolares proporciona — além de autonomia — a oportunidade de a criança se deparar com seus medos e enfrentá-los. Existem, inclusive, substâncias neuroquímicas que são ativadas apenas na socialização. Perto de sua família, a criança tem diversos ganhos, mas a partir de uma determinada idade é preciso que ocorram interações mais amplas.


Não faltam indícios para sustentar que nossa sociedade carece de uma organização que respeite a vida e esse debate também é válido para outros momentos. Todavia, se focarmos no conceito de vida, veremos que viver é muito mais que sobreviver. Apesar de estarmos atrasados enquanto civilização na compreensão do que é vida, já temos pesquisas suficientes para compreender que parte fundamental dela vem da nossa capacidade emocional. No fim das contas, como cuidamos de nossa vida física depende da relação de amor que possuímos com o outro e com nós mesmos. Esses vínculos tão importantes são desenvolvidos na infância por meio da convivência também com colegas e professores.


Ser a favor da volta às aulas, no cenário da pandemia, é desafiador. Acabamos sendo colocados em uma disputa que se contrapõe “valorização da vida” quando resiste ao diálogo plural. Embora o tema tenha caído nessa disputa superficial, é indispensável trazê-lo à tona. Quando falamos em decisões coletivas, quanto mais perspectivas são levadas em consideração, mais acertada é a decisão.


É verdade que tudo se recupera e que para tudo existe uma alternativa, porém as marcas que mais determinam a existência de um ser são cunhadas na primeira infância. Não estamos mais falando de conteúdos, estamos falando de um período de desenvolvimento vital para a saúde emocional desses sujeitos no futuro. Precisamos pensar nas crianças que não estão em casa, não estão protegidas e nas famílias que não tem a opção de home office.


Cada escola, família e criança tem uma realidade. Precisamos fiscalizar, testar e observar cada contexto. Realmente existem instituições com salas lotadas, pouco espaço de circulação, pouca equipe para higienização e poucos professores para atender um grande número de jovens. Mas existem, também, pessoas e instituições que estão tomando todas as precauções possíveis e necessárias para evitar a disseminação da COVID-19.


Sendo assim, faz-se necessário mais uma vez superarmos a dualidade do “sim ou não”, do “8 ou 80” e permitir que surja um olhar aberto a complexidade das situações.


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