Formação e formatação: lições que precisamos aprender e transmitir

Atualizado: 3 de Dez de 2020


*por Laina Brambatti, diretora pedagógica da Cataventura Escola Infantil


Pensava hoje sobre como trabalhamos com ideias encaixotadas e lembrei da importância da ideia de “educação cósmica” apresentada por Maria Montessori. Cosmos significa ordem, harmonia entre vários elementos diferentes. Pode ser considerado oposto ao caos. No contexto pedagógico, olhar para a noção cosmológica é também se abrir para o novo.


Colocamos nosso conhecimento em caixas, colamos etiquetas e os apreendemos isoladamente. Por vezes, até a relação entre eles é observada a partir de uma nova caixa, nova etiqueta, nova disciplina. Mesmo quando ousamos diante estabelecer uma relação, não raramente acabamos caindo na mesma lógica de compreensão limitada.


A educação tradicional, aquela que vigora há tanto tempo, sustentada na organização cartesiana (lembre do sistema cartesiano da matemática e imaginem réguas medindo e definindo tudo) do conhecimento não é problemática apenas no sentido de propiciar um aprendizado baseado no conteúdo e distante da realidade. É problemática, especialmente, porque nos condiciona a aprender o mundo dessa maneira restritiva.


Restritiva porque não oportuniza o exercício do raciocínio e da criatividade, mas, sim, a aplicação de raciocínios prontos, reduzindo a educação à reprodução de fórmulas alheias. Ainda quando há um pequeno espaço (ele sempre é pequeno na escola tradicional) para a criatividade e para a autonomia do pensamento, o desfecho é competitivo e medido com provas, números, tabelas pouco ou nada dialógicas.


Saímos, após muitos anos de formação, que também poderia se chamar formatação, com o hábito de olhar para o mundo com lentes unilaterais que nos permitem ver apenas extremos, vamos do 8 ao 80 em segundos, definindo verdades para todos a partir de um único ponto de vista, que se recusa a uma auto avaliação. Não se recusa por que é forte, embora passe muitas vezes essa impressão, mas sim, por que é frágil e tem medo de ser facilmente destituído de sentido.


Ser capaz de estabelecer relações é uma habilidade tanto cognitiva quanto emocional, em alguns aspectos também social e cultural, demanda experiências diversas, conhecimentos múltiplos que interagem entre si e com a vida como ela é. Essa habilidade – juntamente com a criatividade, a criticidade, a capacidade de diálogos verdadeiros, entre outras que se entrecruzam – é fundamental para que uma pessoa possa compreender quem é e o que é diferente dela mesma. Essa flexibilidade é indispensável para a prática da empatia.


O mundo não é feito de sim e não. A vida não segue em linha reta. O entendimento não é um processo unicamente metódico e passível de ser finalizado completamente. As pessoas não são apenas as funções que ocupam no meio social, muito menos apenas homens ou mulheres. Os sentimentos podem ser contraditórios.


A vida real é múltipla, interativa, altamente disforme. O discurso pode ter múltiplos significados.


Compreender e valorizar a importância da educação cósmica montessoriana envolve perceber que a forma de vida humana é rica de uma complexidade inalcançável em juízos superficiais sobre conteúdos. Precisamos relacionar nosso viver diário, nossos modos de ser e existir no mundo com as atividades educacionais, desde cedo, sejam familiares ou escolares. Dialogar com as diferenças e respeitar a complexidade de tudo e de todos que existem em interdependência, estabelecendo relações diretas entre teoria e prática, é por sua vez, um dos pilares para uma sociedade pacífica.

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