Qual a relação entre a educação e a formação moral?


* por Laina Brambatti, diretora da Cataventura


Você já percebeu que constantemente observamos as pessoas ao nosso redor e julgamos se suas atitudes são boas ou más? Apesar de fazermos isso com discrição e com certo mal estar, é natural que analisemos os comportamentos humanos e tenhamos algo a dizer sobre eles.


As noções de “bom”, “mau”, “certo” e “errado” nos ajudam a formular juízos morais — ou seja, frases que expressam nosso código moral ou um código moral com o qual concordamos —, por exemplo. O código moral, por sua vez, pode ser entendido como conjunto de normas que carregamos como uma cartilha do que devemos ou não fazer, falar e, às vezes, sentir…


O código que adotamos têm origem na educação que recebemos e na cultura da qual fazemos parte. Ainda na infância, cada pessoa aprende sobre ele, especialmente com seu núcleo familiar — que é compreendido como um grupo de pessoas que, geralmente, mora na mesma casa, é muito próximo ou compartilha o mesmo cotidiano.


Todos nós, adultos, temos lembranças de nossa aprendizagem moral e sabemos que a família tem o compromisso de orientar. Sabemos, também, que nossa cultura participou desse aprendizado. No entanto, é comum observarmos os adultos restringindo seu diálogo com as crianças a ordens, repreensões e orientações. E, nesses momentos, o “não” é de uso constante.


Além da família, no início de nossas vidas, outra grande difusora dos usos e costumes é a escola. Juntos — o núcleo familiar e a escola — transmitem a moralidade principalmente por meio do discurso, seguido de recompensas ou punições, conforme os seguimos ou não. Mais tarde nossos colegas e amigos contribuem reagindo de modo a aprovar ou não nossos comportamentos.


Assim, uma das características fundamentais para identificarmos alguém como adulto é já ter consolidado dentro de si um fio condutor de moralidade que chamamos comumente de “responsabilidade”, “caráter” e “ética”. Porém, se todos nós passamos por essa intensa formação, desde cedo e durante toda a vida, por que ainda observamos tantas atitudes más, injustas, irresponsáveis, antiéticas?


Uma das respostas para essa pergunta está relacionada ao modo como nos transmitiram estas noções: se as “regras” da moralidade nos foram passadas de forma um tanto agressiva, nós nos tornamos condicionados a agir motivados pelo medo da punição ou desejo de recompensa. Sendo assim, muitas pessoas aproveitam momentos em que acreditam que não serão punidas para apenas seguirem seus impulsos, sem considerar as consequências. Afinal, aprenderam que as únicas consequências que importam são: punição ou recompensa.


Quando fui professora de crianças e adolescentes, notei que estudavam e se dedicavam às disciplinas na mesma proporção em que os conteúdos apresentavam dificuldade suficiente para que tivessem notas ruins, representando um risco real de precisar repetir o ano, que era, com certeza, uma das piores ameaças que podiam sofrer naquele contexto. Como aprenderam isso? Com a família, a cultura, os amigos e a própria capacidade interpretativa. Ensinar dessa forma é o propósito pedagógico das escolas? Não, pois, ao menos teoricamente, faz muito tempo que as escolas pretendem tornar crianças e adolescentes competentes em muitas áreas de conhecimento.


Os alunos aprendem verdadeiramente quando estudam para “passar de ano”? Não. A prova é que a maioria daqueles que “passam de ano” para chegar em um curso superior precisam estudar conteúdos básicos, isso quando não precisam revisar todo o ensino fundamental e médio em um pré-vestibular para poder ingressar no ensino superior.


O resultado é que crescemos até disciplinados e tentamos fazer a escolha certa com base nesses códigos transmitidos oralmente, com expressões e reações emocionais que fomos tentando incorporar enquanto vivíamos. Porém, não compreendemos o porquê de tais normas para além do medo de ser reprovado e do desejo de ser aprovado. Ou você já entendeu por que não podia usar boné dentro da sala de aula?


Quando um código moral é significativo, nós o seguimos, mesmo que ninguém esteja olhando, mesmo sem risco de punição e mesmo que não ganhemos aplausos em seguida, pois nossa consciência, nossas emoções e nossa inteligência compreendem juntas a razão de ser de tal regramento. Assim, ser um sujeito ético é mais que apenas obedecer códigos morais. A ética faz parte da sua vida quando você compreende a relação entre a sua ação particular e as outras pessoas de sua família, bairro, cidade, estado, país, continente e mundo.


A ética, além de ser uma disciplina filosófica, é um exercício crítico reflexivo que te torna capaz de reconhecer desejos, identificar os recursos e caminhos necessários para realizá-los e avaliar as consequências das escolhas feitas, para si e para os outros, de modo coerente. Também é necessário o conhecimento aprofundado de si para que tenhamos uma boa noção da realidade.


Quando temos essa capacidade, um código moral é complementar e até dispensável, somos menos impulsivos e mais bem-sucedidos na vida, visto que faremos escolhas melhores e, sempre que possível, considerando o bem comum. Afinal, isso é ser de fato maduro e responsável, valores que os adultos geralmente “cobram” das crianças e dos adolescentes.


Mas, como ensinar isso a criança? Como tornar esse processo de pensar antes de agir naturalizado?

  1. Permita que a criança observe causas e consequências, sem emitir sua avaliação a respeito. Apenas avise do risco, caso o pior aconteça descreva o que aconteceu, com tranquilidade. Por exemplo: “se você continuar balançando o copo de água, poderá se molhar e molhar chão. Se isso acontecer precisaremos limpar e a brincadeira vai ter que esperar.” Convide a criança a fazer parte da resolução do problema: “Aconteceu o que te disse: derramou, vamos limpar”; e caso ela se recuse fale sobre como você se sente diante da negativa. Deixe que ela reviva a situação em outra oportunidade, segurando o próprio copo novamente e diga que confia nela para tentar segurar o copo corretamente dessa vez. Aja como alguém que confia.

  2. Ajude a criança a identificar seus desejos e necessidades, escutando o que ela diz. Isso começa cedo, quando respeitamos o sono e a fome da criança, por exemplo. Para tal é necessário observar e perguntar, mais que ordenar. Pergunte o que ela acha do que fez, em vez de reclamar ou parabenizar.

  3. Demonstre como agir com respeito, o exemplo é de extrema importância, respeitando as pessoas ao seu redor e convidando-a a fazer o mesmo. Lembre-se de respeitar a criança: pedir licença a ela em vez de só tirá-la do caminho, e em vez de apenas pegar alguma coisa da mão dela, pedir com gentileza que ela lhe entregue.

  4. Permita que a criança faça o que ela já for capaz de fazer, pois não existe responsabilidade sem autonomia.

  5. Expresse o alcance das ações consideradas graves e incentive o respeito a todas as formas de vida, não permitindo que a criança mate formigas por diversão, por exemplo, pode gerar um bom bate-papo sobre respeito a vida.

Essas são algumas dicas sobre como – por meio da educação, desde a primeira infância – temos a oportunidade de contribuir para uma sociedade mais justa, na qual as pessoas compreendem de fato a razão de ser das regras, sejam elas morais ou jurídicas. Mas acima de tudo que possam encontrar caminhos para a realização de seus desejos, sem que as consequências gerem problemas para elas mesmas, para a família e para a sociedade. Imaginem que mundo feliz!




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